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    Escritora, professora, tradutora, linguista e teóloga, há vinte anos envolvida no trabalho voluntário de produção de material e ensino tanto no Brasil quanto em Moçambique. Licenciada em Letras - Português-Inglês pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná – PUC/PR. Bacharel em Teologia pela Faculdade Fidelis, Curitiba/PR. Mestre em Teologia pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná – PUC/PR. Associada à ABIB – Associação Brasileira de Pesquisa Bíblica e participante da AHDig – Associação das Humanidades Digitais. Promove debates em blogs e reuniões informais além de ministrar aulas particulares de português, hebraico e inglês, cursos livres nas áreas de linguística, tradução, teologia e missiologia, e efetuar correções de textos em português. Mantém-se escrevendo, tanto em verso quanto em prosa, ligada ao teatro e à pintura, com o desejo de prosseguir em suas pesquisas (doutorado e aulas nas áreas de educação, teologia e letras) e trabalhos interculturais. Livros produzidos: http://pt.slideshare.net/eetown/teologia-em-poesia-de-angela-natel http://pt.slideshare.net/eetown/a-toca-da-tuca-de-angela-natel http://pt.slideshare.net/eetown/poemas-do-espelho-uma-autobiografia-de-angela-natel http://pt.slideshare.net/eetown/poesia-o-amor-e-onde-ele-acontece-de-angela-natel http://pt.slideshare.net/eetown/percepes-de-angela-natel Produção disponível em https://independent.academia.edu/AngelaNatel Banco do Brasil Agência 2823-1 C/C: 40006-8 Currículo Lattes: http://lattes.cnpq.br/7903250329441047 Livros produzidos: http://pt.slideshare.net/eetown/teologia-em-poesia-de-angela-natel http://pt.slideshare.net/eetown/a-toca-da-tuca-de-angela-natel http://pt.slideshare.net/eetown/poemas-do-espelho-uma-autobiografia-de-angela-natel http://pt.slideshare.net/eetown/poesia-o-amor-e-onde-ele-acontece-de-angela-natel Editoria Online do Jornal: Direitos Humanos em Foco https://paper.li/f-1406058022 http://pt.slideshare.net/eetown/percepes-de-angela-natel Produção disponível em https://pucpr-br.academia.edu/AngelaNatel Outras redes: Twitter: @AngelNN http://www.pinterest.com/angelanatel/ http://www.skoob.com.br/usuario/902792 https://www.youtube.com/user/angelanatel http://vimeo.com/angelanatel007 http://www.linkedin.com/pub/angela-natel/65/296/58 http://www.babelcube.com/user/angela-natel Endereço para correspondência: Rua Francisco Derosso, 2560 - lojas 4 e 6 Caixa Postal 21016 - Xaxim - Curitiba - PR 81720-981 Banco do Brasil Agência 2823-1 C/C: 40006-8

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Tamar, uma mulher justa

tamar
 
O nome Tamar significa palmeira. A feminista vitoriana Elizabeth Cady Stanton recusou-se a incluir em seus estudos passagens sobre Tamar, alegando que “eram impróprias para a Bíblia da Mulher” (HIGGS, 2002, p.241). Seu grande pecado? Foi meretriz por um dia, e engravidou do sogro.
A chave para entender sua história é compreender que tipo de leis e regras esta mulher estava infringindo. Por isso é importante lembrar que, em sua época, a Lei formal ainda não tinha sido dada, os profetas ainda não haviam proclamado sua mensagem, não havia juízes, não havia reis.
Sua história é narrada no meio da narrativa a respeito de José (Gn.38). Judá é o epônimo da tribo de onde virá o Messias. Ele ocupa um lugar de destaque. É o irmão que gostaria de salvar José (Gn.37.26-27) e que atua num momento culminante dessa história (Gn.44.18-34). Judá se distancia de seus irmãos após a venda de José. Na terra de Canaã ele se casa e tem três filhos: Er, Onã e Selá. Não se sabe nada sobre a família de Tamar além de que era jovem, cananéia e plenamente fecunda. Tamar casa-se com Er, mas a Bíblia descreve que este morreu por seu comportamento perverso. Higgis (2002, p.243) diz: “a tradição rabínica descreve a natureza da conduta perversa de Er como ‘coito contrário à natureza’ (…) cujo objetivo era impedir que sua mulher engravidasse.”
Entra em cena a Lei do Levirato: o próximo filho casa-se com a viúva, e o primeiro filho que tiver com ela será considerado filho do falecido. A partir dessa noção é possível a compreensão de que o conceito de vida após a morte está relacionado à cosmovisão oriental de que a família é constituída de vivos e mortos (DAVIES, 1981, p.138.). O ‘nome’ dos mortos deveria ser mantido através do ato de um levir (o irmão seguinte) ao gerar filhos em seu lugar e, como a idéia de Sheol (mundo dos mortos) se contrapõe à aniquilação total, esses antepassados são honrados e mantidos na linhagem familiar, e as propriedades são mantidas na família com o nome da linhagem do falecido (DAVIES, 1981, pp. 138-144). Segundo Sayão, em seu comentário Rota 66 para a Rádio TransMundial, o levirato era uma obrigação social, e a recusa em cumpri-la era claramente reprovada por Deus (SAYÃO, 2008, CD n.2).
Não se tratava, portanto, de um casamento como nos moldes da sociedade atual, era uma espécie de “serviço de inseminação para a viúva”. A viúva estaria ligada (“casada”) com a família até que não houvesse mais filhos com quem ela pudesse casar. Essa ligação lhe garantia sustento, segurança e reputação. Isso a livraria da indigência, da desgraça e da desonra (HIGGS, 2002, p.244).
Sem filhos, uma viúva não tinha provisão financeira e era forçada a pedir esmolas ou fazer coisas piores. O costume do levirato (que mais tarde virou realmente uma lei: Dt.25.5) visava evitar essa situação.
Tamar casou-se, então, com Onã, o segundo filho de Judá. Para Onã, entretanto, seria melhor que Tamar nunca tivesse filhos. Assim o pai dividiria a herança em apenas duas partes. Foi por isso que ele decidiu praticar o que chamamos de ‘coito interrompido’, uma das formas mais antigas de controle de natalidade. No caso de Tamar, era duplamente cruel: não apenas impedia a gravidez (o que ela mais ansiava), mas também lhe roubava qualquer prazer na relação. Onã usava Tamar sem escrúpulos, tratando-a como uma prostituta e não como sua esposa. Seu comportamento (…) permitiu-lhe até um lugar nos dicionários. Em alguns deles, uma das acepções para a palavra ‘onanismo’ é justamente ‘autoprazer’ (HIGGS, 2002, p.245).
A Bíblia declara que Deus matou Onã por seu comportamento ofensivo. Em seguida Judá, com medo que seu terceiro filho, Selá, também morresse, mandou Tamar de volta para a casa de seu pai. É possível perceber o quanto uma mulher estava à mercê de uma sociedade patriarcal, sendo identificada como pertencendo a alguém: marido, pai, família do sogro.
Porém, somente uma verdadeira viúva poderia ser recebida novamente na casa de seu pai. Enquanto restasse a Judá um único filho vivo, com quem Tamar poderia casar-se e deitar-se, ela permaneceria ‘casada’ a esta família. Legalmente, portanto, Tamar é considerada noiva de Selá (MURPHY, 2007, p.117). Por reter seu filho, Judá desonrou Tamar, depois a mandou de volta para casa sem dinheiro, sem filhos, e em completa ignomínia. Ela, uma repudiada com três problemas graves:
• Era jovem, mas não disponível para casar;
• Aparentemente estéril;
• Viúva duas vezes.
Foi abusada, enganada e esquecida. Então, na estação de Tosa das Ovelhas, Judá, agora viúvo, apareceu na cidade, e ela decidiu agir por conta própria. A situação tinha a ver com dar continuidade ao nome da família. Selá não poderia se casar enquanto Tamar estivesse viva, porque ele estava ‘preso’ ao levirato, e vice-e-versa. Judá enviuvara (Gn.38).
Tamar queria preservar o nome do marido morto e libertar-se da posição de viúva à espera. Ela tinha o direito de ser a mãe do herdeiro de Judá. De seu ponto de vista, ela estava prestes a fazer um favor a Judá e não apenas a dar-lhe prazer sexual. Ela não procurava casamento, honra ou vingança, mas sim filhos, e o futuro que eles representavam, tanto para a linhagem de Judá como para a sua própria segurança financeira. Ela decidiu sacrificar sua reputação, sofrer e agir em favor de seus objetivos. Ela, então, veste-se de prostituta…
 
Embora a lei assíria ditasse que as prostitutas comuns deviam permanecer sem véu, as prostitutas cultuais cananéias eram obrigadas a usá-lo. E elas não apenas usavam o véu enquanto esperavam por clientes, mas durante o próprio ato sexual, dando a seus parceiros a ilusão de que eles estavam ‘na verdade, tendo uma relação sexual com a própria deusa’ Dessa forma, os homens podiam convencer-se de que isso não era sexo…fazia parte do culto (HIGGS, 2002, p.250).
 
Assim os homens honravam os deuses e representavam o casamento divino de Ishtar com Baal para assegurar fertilidade e prosperidade a seus campos e rebanhos (WALTON, 2003, p.69). Se esse foi o caso de Judá, não se sabe. O que pode ser uma evidência é o uso do véu por Tamar, que distinguia os dois tipos de serviço e que dificultou o reconhecimento dele para com ela. Após o ato, ele deixa com ela objetos que serviam para identificá-lo a fim de enviar mais tarde o pagamento. Tamar conseguiu o que queria, e estava grávida.
Quando Judá soube que a nora estava grávida, imediatamente mandou que a queimassem viva (Gn.38.24) sem nem sequer mandar interrogá-la. Ele tinha esse direito porque ela pertencia à sua família, ainda que negligenciada. O poder do patriarca naquela época é visto nesta narrativa. Mesmo que Tamar não estivesse vivendo sob o mesmo teto que Judá, ele tinha o direito de determinar quem tinha acesso sexual a ela. Sua gravidez indicava que ela havia sido insubordinada. Como viúva, ela não poderia ter sexo com ninguém. Como estava grávida, tornara-se uma prostituta (HIGGS, 2002, p.256). O castigo comum era o apedrejamento. O fogo só foi mais tarde usado quando se tratava da filha de um sacerdote em caso de incesto (Lv.20.14; 21.9; Dt. 22.23,24) (HIGGS, 2002, p.256.).
Ao se defender, Tamar não acusou diretamente Judá (Gn.38.25). Ele levou a culpa por sua negligência que a obrigara a tomar aquela atitude (Gn.38.26; Lv.18.15). Aquela mulher estrangeira ensinou a Judá o que era justiça (HIGGS, 2002, p.258.).
Tamar teve gêmeos. Por causa do parto, o fio vermelho amarrado na mão de um dos bebês se tornou, para Tamar, o símbolo do primogênito. Seus filhos chamaram-se Peres (‘brecha’, ‘rotura’, ‘que abre o caminho’, ascendente de Davi e de Jesus) e Zerá (‘rubor’).
 
Judá mostrara pouco interesse pela continuação de sua linhagem. Em vez disso, Deus usou uma mulher cananéia, envergonhada por pensar ser estéril, a fim de assegurar que a tribo de Judá não só sobrevivesse, como também viesse um dia a gerar o Messias do mundo (SPANGLER, 2003).
 
 
Antes de sua própria história terminar, Tamar é declarada mais justa que
Judá, que foi o filho de Jacó escolhido por Deus. Ela é a única mulher identificada como ‘justa’ no Antigo Testamento.* Tamar também é mencionada de forma honrosa no livro de Rute. Tamar é justa no sentido de que teve mais preocupação que Judá pela descendência. Em nota na Bíblia Tradução Ecumênica, na Fenícia do século XIX a.C. a mulher que garantisse pela descendência real a prosperidade do reino era chamada ‘mulher da justiça do rei’ (BÍBLIA, 1994, p.76). Por causa da coragem de Tamar, a linhagem continuou e a vida foi preservada. Por essa razão, a tradição judaica a tem em alta estima.
Tamar se destaca também de outras mulheres na Bíblia porque não se manteve vítima das circunstâncias, nem garantiu justiça para si mesma. Em sua história, é possível compreender que o único pecado imperdoável é rejeitar a graça de Deus (HIGGS, 2002, pp.263-264).
 
Notas: * No Novo Testamento, Isabel é identificada com Zacarias como ‘justos’ – Lc.1.5-6 – e a carta de Tiago pronuncia Raabe como justificada por suas obras – Tg.2.25.
 
Fonte:
Natel, Angela. As mulheres da genealogia de Jesus em Mateus, e as Implicações teológicas na mensagem do reino de Deus / Angela Natel. ─ Curitiba, 2012, pp.16-19 – Monografia (Trabalho de conclusão de curso de Bacharel em Teologia da Faculdade Fidelis)

O Dasein é um ente hermenêutico…

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O ser humano é uma máquina de atribuir sentido… Mesmo quando alguém diz, de modo niilista, que o mundo não tem sentido, que tanto-faz-tanto-fez, ele está lhe atribuindo sentido… No dizer de Niklas Luhmann, o sentido é uma ‘forma’ sem outro lado… Dizer que algo não faz sentido já é lhe atribuir o sentido de confuso, intrincado, inexpugnável.
Na arte de interpretar leis, em busca de ‘normas’, os intérpretes deparam-se com os problemas inerentes a toda e qualquer interpretação. De partida, há o problema da atribuição do significado… Mesmo quando promovida de modo automático, irrefletido, sem colocar o mundo em questão, a tarefa hermenêutica está sempre presente, à semelhança do tom racista com que deve necessariamente ser recebido qualquer uso da suástica, depois da ignomínia do seu emprego nazista, ou à semelhança da compreensão de expressões como ‘bom dia!’… Claro que, no cotidiano, não raro, a interpretação se dá de modo imediato, sem a necessidade de um trabalho mais acurado de reflexão sobre o sentido do ‘quid’…
Talvez seja por isso que, ainda hoje, haja quem ingenuamente imagine que ‘in claris non fit interpretatio’…, como se apenas houvesse interpretação em casos difíceis. É ingênuo, digo, eis que saber se algo é claro ou ambíguo já depende de alguma atividade hermenêutica, mesmo que irrefletida. O problema é que, como todos sabemos, a linguagem é polissêmica. O sentido depende de contexto. Melhor dizer: o sentido de algo depende também da atribuição de sentido para o que chamamos de contexto. Saber o que uma asserção significa também depende, em muitos casos – mas, não em todos – da intenção com que se imagina que tenha sido empregada pelo falante (aparentes elogios podem facilmente ser traduzidos em ofensas, se constatada a presença de um tom irônico na fala, por exemplo).
Em outras tantas hipóteses, depende muito mais de alguma tradição – e claro que a tradição importa sempre! -, a exemplo da interpretação das obras de William Shakespeare, Homero, Camões, para mencionar apenas os clássicos… No geral, dado que a atribuição de sentido se dá de modo inconsciente, a hermenêutica não se convola em um problema de decisão ou de escolha. Parece não haver alternativas: o sentido é esse… E ponto! Em outras tantas hipóteses, todavia – sobremodo no trabalho deliberado, meditativo -, fica nítida a existência de distintas possibilidades, distintos sentidos, distintas interpretações cabíveis…
E esse é o cotidiano dos juízes. Claro que, em muitos temas, também aqui, frequentemente a interpretação parece ser única e o problema não se coloca. No geral, todavia, diante do mesmo caso, e da mesma lei, percebe-se facilmente haver inúmeras alternativas…, impondo-se a necessidade de JUSTIFICAÇÃO da escolha…, o que jamais pode ser empreendido ao estilo robisonada (criticada por Gadamer), exigindo-se respeito à racionalidade pública, compartilhada pela comunidade de falantes (o que não se traduz em subserviência às maiorias de ocasião…).
Claro que parece equivocado imaginar que a interpretação seja um problema de vontade, de deliberação ou de sentimento…, eis que tais categorias estão impregnadas de uma nota de irracionalidade, de intuição, insuscetível daquele controle sobre a atuação dos agentes políticos, prometida pelo Iluminismo. Daí que, de modo contrafático, seja necessário falar em direito ‘à resposta correta’ em matéria de interpretação, o que não significa que haja tal resposta correta, compreendida como algo singular e acurado. O risco de se falar em resposta correta, em temática dessa ordem, é de se vender a ideia de que a resposta correta é aquela que ‘eu defendo’! E ponto.
Voltando ao problema… Toda interpretação depende também da seleção do que será interpretado. Quais textos legais interessam ao caso? Quais fontes normativas? O que será examinado? Nesse âmago, existe uma interconexão profunda entre identificação dos fatos relevantes para o caso – i.e., interpretação das provas tidas por relevantes ao thema decidendum – e a interpretação das fontes normativas cuja relevância para o caso decorre justamente da atribuição de sentido para as provas… É uma mútua afetação, como dizia… Kant já sabia que não se pode ensinar o ‘juízo’, compreendido como a capacidade humana de reconhecer um fato como o caso de uma lei (reconhecer que normas são relevantes para um dado caso… reconhecer quando um fato pode ser imaginado como hipótese de aplicação de uma tal norma e não de outra…).
Não se pode ensinar lógica para quem não tenha capacidade de pensar logicamente, ainda que tal capacidade – se presente – possa ser depurada. No exemplo de Hegenberg, precisa-se de aço para se forjar martelos e precisa-se de martelos para se forjar o aço… Paradoxal… Mas, no cotidiano, martelos são feitos e o aço é forjado…, cuidando-se muito mais de um problema de refinamento do que se tem. Não raro, recai-se, com isso, no problema do método – o caminho correto, segundo Descartes -, como se isso garantisse a resposta correta. O problema todo é que métodos há vários e não há método para escolha do método… No âmbito do discurso jurídico, isso se traduz no problema da CONTINGÊNCIA da seleção das premissas externas (Jerzy Wróblewski) do raciocínio jurídico (o ponto de partida do discurso). Dado que a própria Constituição também é polissêmica e pode dar margens a distintas interpretações, como justificar a interpretação da própria Lei Maior…? Claro que há interpretações melhores e piores… Claro também que a racionalidade prática nos outorgou, ao longo de gerações, chaves de leitura… Mas, isso não é garantia de muita coisa, dado que a tradição também pode ser iníqua e estar equivocada…, como, não raro, está.
Todo esse discurso tem alguma nota de RELATIVISMO, o que não é ruim, se compreendido como tolerância com o que pode ser tolerado… Dado, porém, que toda interpretação depende também – querendo ou não – de quem interpreta, é fato que os bens de muitas pessoas podem depender, querendo ou não, do fator SORTE, AZAR, de humores, metarregras e idiossincrasias de quem decide… E isso parece inadmissível, sob qualquer concepção de democracia, diante de juízes não eleitos, cujos votos não podem ser controlados senão diante da ilusão de que a lei vincula…
Claro que há construtos regulativos que buscam racionalizar/axiomatizar os valores alheios (juiz Hércules do Dworkin, auditório universal do Peirce, Habermas, Perelman, condições ideais de fala do Habermas, imperativo categórico do Kant, diferença entre exame prima facie e tomando tudo em conta, Bayon). No final de contas, todavia, tais construtos são insuficientes, dado o risco de que meramente racionalizem/projetem os valores de quem os emprega (leia-se Kelsen. O problema da justiça, em contraponto com a Ilusão da Justiça, do mesmo autor).
A interpretação de leis não se distancia da interpretação da arte, salvo, talvez, pelo seu emprego pragmático (decidir sobre a vida alheia). Não há como alguém afiançar, de modo acurado, que a interpretação de uma obra de arte deva ser necessariamente essa ou aquela… Mas, ficamos nós, ainda hoje, dependentes dos rompantes, dos complexos e traumas que habitam a psique de quem decide em nome alheio. Isso é incontornável, inexorável…., mesmo quando seja simplesmente olvidado, colocado em epochè no âmbito de um discurso (jurídico) que trabalha muito com idealizações e talvez não perceba que, no cotidiano, muitas vezes, decide-se primeiro, justifica-se depois… (e não deveria ser assim!!!)

Autor: Flavio Antônio da Cruz
Fonte: https://www.facebook.com/flavioantonio.…/…/1395581657169370…

Observação: Dasein é o termo principal na filosofia existencialista de Martin Heidegger. Na sua obra Ser e tempo, Heidegger se põe a questão filosófica do ser.

TIRADENTES: Um país carente de heróis, mas não postiços – Por Hermes C. Fernandes

“Meus heróis morreram de overdose, meus inimigos estão no poder.” Cazuza.
“Um Che Guevara você só para na bala. Um Martin Luther King Jr. você só para na bala. Um Gandhi você só para na bala. Para outros, um cargo no Planalto, uma garrafa de whisky, uma mulher, ou uma mala de dinheiro são suficientes.” Ed René Kivitz, téologo brasileiro
Toda sociedade que se preze tem seus heróis. São eles que, além de reforçarem a identidade nacional, inspiram novas gerações a lutarem por seus ideais. Uma sociedade sem referências está fadada a experimentar uma sensação de orfandade, algo parecido com o que Israel sentiu ao reivindicar de Deus um rei, já que cada nação tinha o seu.
O Brasil é um país carente de heróis. E não é por não existirem ou não terem existido. Nossa história está repleta de personagens que lutaram bravamente por uma sociedade mais justa, livre e soberana. Então, por que não são celebrados? Em vez disso, muitos deles são propositadamente sabotados, pintados como vilões, monstros sanguinários, terroristas, bêbados, daqueles que merecem ser esquecidos tamanha a vergonha que nos causam.
Getúlio Vargas, o pai dos pobres
É difícil entender a razão de não celebrarmos, por exemplo, a memória de Getúlio Vargas, conhecido como pai dos pobres, enquanto os EUA celebram com orgulho a memória de George Washington e Abraham Lincoln. O homem que garantiu os direitos trabalhistas, que industrializou o país, acabou relegado ao esquecimento. O mesmo se dá com Juscelino Kubitschek, construtor de Brasília.
Os países que buscam exercer hegemonia sobre os demais sabem do perigo que é permitir que cada nação tenha seus próprios heróis, pois temem que estes possam inspirar eventuais insurreições do seu povo. Por isso, medidas preventivas são tomadas para coibir o surgimento destas figuras heroicas. Para preencher o vácuo, não raras vezes, heróis postiços são forjados sob medida, algo como “o caçador de marajás”, que de uma hora para outra, tornou-se quase numa unanimidade no país. Fernando Collor de Mello surge repentinamente no cenário político nacional, fisgando, com seu discurso ensandecido, a confiança de um povo carente de esperança. Deu no que deu. Os mesmos que o forjaram, derrubaram-no quando este ousou contrariar seus interesses.
Hoje, dia 21 de abril, celebraremos a memória de Tiradentes, o herói da inconfidência mineira. Você já se perguntou a partir de quando Tiradentes passou a ser visto como um herói nacional? Para aqueles que o enforcaram, ele não passava de um vigarista, um trapaceiro, um infame traidor da coroa portuguesa. Por muitos anos, a imagem que prevaleceu foi esta. Ainda hoje, há quem se dedique a macular sua imagem, alegando, entre outras coisas, que ele se opunha à abolição da escravidão, e que sua luta não era pela independência do Brasil, mas apenas de Minas Gerais. Sem contar, teorias aparentemente mirabolantes que afirmam que ele nem sequer chegou a ser enforcado. Enquanto outro tomava seu lugar no cadafalso, Tiradentes fugia para a França, onde teria vivido confortavelmente com uma identidade falsa. Se esta teoria estiver correta, o Tiradentes ensinado nas escolas jamais existiu. Trata-se apenas de uma história inventada pelos republicanos do século XIX para tentar legitimar o golpe militar que engendraram, e que foi reforçada pelos ditadores militares entre as décadas de 1960 e 1980.
Tiradentes
Quem seria o verdadeiro Tiradentes, afinal, o que estampa nossos livros de história com uma fisionomia que lembra o Cristo, ou o revelado por seus detratores? Talvez nunca saberemos. Ainda que ele fosse um legítimo herói nacional, para aqueles que o enforcaram, ele não passava de um traidor obstinado. Assim como Sansão e Davi, ambos heróis dos hebreus, mas vilões dos filisteus.
Aprendi com o filme “Coração Valente” que a história é a versão dos vencedores. William Wallace, celebrado no filme estrelado por Mel Gibson, foi considerado herói dos escoceses, mas ainda visto como um vilão traidor para a coroa inglesa.
Não há heróis que gozem de unanimidade em ambas as trincheiras. Alguns não são unanimidade nem mesmo entre seu próprio povo. Tomemos por exemplo Nelson Mandela. Se você imagina que o homem que derrotou o regime de segregação do Apartheid na África do Sul é celebrado por todos naquele país, você está redondamente enganado. Ainda hoje, Mandela é odiado, principalmente pela classe dominante. Chamam-no de comunista, terrorista, corrupto, e daí para baixo. O mundo inteiro o celebra, menos seu próprio povo, ou parte dele.
Martin Luther King
E o que dizer de Martin Luther King? Enquanto morei nos EUA, pude presenciar o desconforto que era, principalmente para famílias brancas, terem que comemorar um feriado dedicado ao pastor responsável pela conquista dos direitos civis dos negros americanos. Para muitas delas, Luther King não passava de um embuste. Espalharam até que, além de comunista, ele também era promíscuo, e teria sido morto durante uma orgia com várias prostitutas. Porém, aqueles que se beneficiaram de sua luta consideram-no seu grande herói.
De Mahatma Gandhi, o maior pacifista do século XX, dizem que mantinha um caso homossexual, mesmo estando casado. De Madre Teresa de Calcutá, mulher que dedicou sua vida a cuidar de leprosos na Índia, dizem que era endemoninhada, temperamental e intratável.
Por isso, sempre olho com reservas qualquer tipo de tentativa de difamar alguém que tenha lutado por um mundo mais justo. Se foram vilões para os impérios que combateram, certamente foram heróis dos povos que libertaram ou pelo qual lutaram.
Alguns foram guerrilheiros. Enfrentaram bravamente poderios bélicos para libertar seus respectivos povos. Odiados por seus inimigos, seguem amados por seu povo.
Infelizmente, não vemos muito disso no Brasil. A mídia conseguiu nos convencer de que alguns célebres expoentes de nossa brava gente brasileira não passaram de terroristas cruéis, que em nome de sua ideologia mataram, assaltaram bancos, sequestraram autoridades de outros países, etc. Tentam nos convencer de que o objetivo deles era implantar aqui uma ditadura comunista bem ao estilo das que havia no Leste Europeu e em Cuba. Muitos deles foram assassinados, não em combate, mas friamente, depois de sessões de tortura. Quando se fará justiça à memória dessa gente, cuja maioria morreu ainda na flor da idade? Quando o país reconhecerá sua grandeza? Nem todos impuseram armas. Alguns lutaram em outras frentes contra um regime totalitário, responsável pela morte e desaparecimento de muitos. Entre eles, alguns religiosos como o Frei Betto e seu irmão, Frei Tito, que acabou se suicidando devido à profunda depressão sofrida após sessões de tortura (para entender melhor este triste episódio de nossa história, assista ao filme “Batismo de Sangue”).
Dom Óscar Romero
Recentemente, o Papa Francisco (que também já está sendo acusado de ser comunista!) anunciou a reabertura do processo de canonização de Dom Óscar Romero, arcebispo de San Salvador (1977-1980). Em uma de suas homilias, Dom Romero afirmou que a missão da igreja é identificar-se com os pobres. Na véspera de seu assassinato, fez um contundente pronunciamento contra a repressão em seu país: “Em nome de Deus e desse povo sofredor, cujos lamentos sobem ao céu todos os dias, peço-lhes, suplico-lhes, ordeno-lhes: cessem a repressão.” Aquilo foi a gota d’água. Óscar Romero foi assassinado enquanto celebrava a missa em 24 de março de 1980 por um atirador de elite do exército salvadorenho, treinado na Escola das Américas. Apesar de ser de tradição protestante, celebro a canonização do Romero por reconhecer seu árduo trabalho em defesa dos excluídos de sua nação.
No Brasil, tivemos Dom Hélder Câmara, que militou bravamente contra a opressão social no país. Certa vez, o arcebispo de Olinda disse: “Quando dou comida aos pobres, chamam-me de santo. Quando pergunto por que são pobres, chamam-me de comunista.” O Vaticano já autorizou a abertura de processo de beatificação do Dom Hélder. Homens como Romero e Câmara me inspiram em minha luta contra a desigualdade social. Porém, eles não são os únicos. Na trincheira política, temos gente como Darcy Ribeiro, que dedicou sua vida à educação e à causa indígena. Poucos homens fizeram tanto pelas nossas crianças do que ele. Mas como não era um aliado da mídia, provavelmente ficará no ostracismo. Num momento de frustração, Darcy Ribeiro disse:
“Fracassei em tudo o que tentei na vida.
Tentei alfabetizar as crianças brasileiras, não consegui.
Tentei salvar os índios, não consegui.
Tentei fazer uma universidade séria e fracassei.
Tentei fazer o Brasil desenvolver-se autonomamente e fracassei.
Mas os fracassos são minhas vitórias.
Eu detestaria estar no lugar de quem me venceu.”
Leonel de Moura Brizola
E o que dizer de Leonel Brizola, o homem que que obteve direito de resposta no Jornal Nacional e teve sua fala narrada por Cid Moreira? Ele foi o responsável por revolucionar a educação no estado do Rio, construindo mais de 500 escolas de tempo integral (CIEPS). É dele a célebre frase: “Devemos investir nas crianças, para que as novas gerações tenham, sobretudo, a coragem para fazer aquilo que não fizemos.” Lembro-me de que à época, espalharam que as crianças eram ensinadas a rezar pela merenda agradecendo a Brizola no lugar de Deus. É assim que agem os detratores, os que preferem manter nosso povo órfão de heróis. Para ridicularizá-lo, seus oponentes adoravam contar do episódio em que teve que fugir do Brasil para o Paraguai vestido de mulher.
A sessão plenária que votou o processo de impeachment da presidente Dilma, deixou o povo brasileiro horrorizado com o nível de seus deputados. A maioria, ao se dirigir ao microfone, dedicava seu voto aos familiares ou ao seu estado de origem. Porém, dois parlamentares chamaram a atenção ao dedicarem seus votos. Um deles foi Jair Bolsonaro que dedicou seu voto a dois personagens controversos: Duque de Caxias e o coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, reconhecido torturador durante o regime militar. Duque de Caxias tem sido celebrado como herói nacional e patrono do exército brasileiro. Liderou a Tríplice Aliança (Brasil, Argentina e Uruguai) na Guerra do Paraguai. Os três países mais ricos da América do Sul, insuflados pela Inglaterra, dizimaram, sob o comando de Caxias, 90% da população paraguaia, no maior genocídio da história da América Latina. E sabe por qual motivo? O Paraguai estava começando a incomodar a coroa inglesa por sua rápida industrialização. Obviamente, esse não foi o motivo oficial alegado. Mas o que causou verdadeira repulsa foi a homenagem que Bolsonaro prestou ao coronel Ustra, a quem chamou de “o terror da Dilma”. Isso, porque foi ele o responsável por torturá-la quando ela tinha apenas 22 anos. De acordo com o depoimento de um companheiro do DOI-CODI, Ustra era conhecido como o “senhor da vida e da morte”, que “escolhia quem ia viver e ia morrer.” Suas sessões de tortura tinham requintes de crueldade, com choques nos órgãos genitais, e ratos vivos no ânus ou na vagina das mulheres. Nem crianças eram poupadas destas sessões de horrores.
Olga Benário
O outro parlamentar que chamou a atenção foi o deputado Glauber Braga que além de insultar o presidente da Câmara Eduardo Cunha, chamando-o de gangster, dedicou seu voto à memória daqueles que nunca escolheram o lado fácil da história, dentre eles Marighela, Plínio de Arruda Sampaio, Evandro Lins e Silva, Miguel Arraes, Luís Carlos Prestes, Olga Benário, Brizola e Darcy Ribeiro, Zumbi dos Palmares.
A partir daí, sempre que alguém criticava a menção feita por Bolsonaro, outro rebatia dizendo que piores foram as menções de Glauber Braga. Não foram poucos que nas redes sociais saírem em defesa do coronel Ustra, alegando que o mesmo combatia terroristas da pior espécie, gente perigosa como o assassino Marighela. Outros questionavam qual seria a diferença entre o que era feito pelos militares e por aqueles que eles se propunham combater. Os dois lados praticaram atrocidades. Verdade. Não há o que questionar. Porém, há uma enorme diferença. Ustra e seus asseclas praticavam torturas e assassinatos em nome do estado repressor. Homens como Carlos Marighela e Luís Carlos Prestes se engajaram na luta em resistência a este estado. O que os movia era um ideal. Se estes guerrilheiros eram bancados pelo império soviético, como geralmente se diz, por que precisariam assaltar bancos em busca de recursos para bancar sua luta? Temos que encarar os desatinos que eles cometeram como crimes políticos, não comuns. Não eram movidos por avareza, mas por um ideal. É óbvio que não apoio tal conduta. Eles erraram. Bastava que fossem presos, julgados e sentenciados. Mas em vez disso, foram torturados, assassinados, e muitos tiveram seus corpos lançados ao mar para jamais serem encontrados. Isso é desumano. Claro que a reação seria proporcional. Apesar de condenar suas atrocidades,não posso fazer vista grossa ao ideal pelo qual lutavam. Posso até não comungar completamente de sua ideologia, nem de seus métodos desastrosos e criminosos, mas comungo da utopia que os movia, o sonho de um mundo mais justo e solidário. Eles lutaram pelo seu país. Não eram bandidos, terroristas, monstros desalmados, mas em sua maioria, jovens sonhadores e revolucionários.
Deitrich Bonhoeffer
Quando perseguido pelo nazismo, Deitrich Bonhoeffer, o célebre teólogo alemão, escreveu um tratado considerado uma das maiores obras primas do protestantismo, que recebeu o nome de “Ética”. Nesta obra, ele justifica seu engajamento na resistência alemã anti-nazista e seu envolvimento na luta contra Adolf Hitler, dizendo que: “É melhor fazer um mal do que ser mau.” Bonhoeffer, que também era pastor, foi considerado um terrorista pelos nazistas e acabou condenado à morte após participar de uma tentativa de assassinato de ninguém menos que Hitler. Devemos concordar com os nazistas e achar que Bonhoeffer não passava de um bandido? Então, por que fazemos isso com os que resistiram bravamente à ditadura militar no Brasil?
Zumbi dos Palmares
E o que dizer de Zumbi dos Palmares, também citado pelo parlamentar? Já cansei de ouvir ou ler que Zumbi também tinha escravos, e que, portanto, não serve para ser herói da população negra do Brasil. Quem somos nós para eleger os heróis de uma etnia? No imaginário popular, Zumbi foi a resistência. Isso não significa que ele tenha sido perfeito. Cada um é filho de seu próprio tempo.
Quem sabe o tempo se encarregue de reabilitar alguns que hoje sofrem a ojeriza do mesmo povo pelo qual lutou. Se Tiradentes se tornou herói, por que não quem conseguiu tirar 36 milhões de brasileiros da extrema pobreza? Como explicar que Lula goze de tanta credibilidade lá fora, e aqui, mesmo depois de terminar seu governo com o maior índice de popularidade da história (82% de aprovação), tem sido tão hostilizado? Como explicar que uma mulher que aos 22 anos foi torturada, levou choques elétricos em sua genitália, teve dentes quebrados a soco, tornou-se na primeira mulher a ocupar a presidência do país, hoje é xingada pela mesma gente pela qual lutou?
Che Guevara
Acho que Malcolm X, contemporâneo de Luther King, nos oferece uma resposta: “Se você não tomar cuidado, os jornais farão você odiar as pessoas que estão sendo oprimidas, e amar as que estão oprimindo.” Portanto, antes de torcer o nariz cada vez que ouvir nomes como o de Che Guevara, Simón Bolívar e outros, verifique se o que você sabe acerca deles não é uma vil tentativa de difamar os heróis de seus respectivos povos. Desconfie de tudo o que diz qualquer império midiático. Da mesma maneira que conseguiram nos convencer que Che Guevara é um monstro, tentam fazer isso com Luther King em seu próprio país. O mesmo com Gandhi e com Mandela, como citei acima. Para o restante da América Latina, Che é visto como herói. Até os europeus o reverenciam. Ele foi o cara que calou a ONU. Mas aqui, ele é um monstro, matador de gays, etc. A gente prefere reverenciar Diego Maradona, Pelé e Ayrton Senna. O mesmo preconceito raso se aplica a Simón Bolívar. Quer xingar alguém no cenário político? Chame-o de bolivariano. Mas quem foi Bolívar? O cara que peitou a coroa espanhola e lutou pela independência de suas colônias na América do Sul. É claro que é melhor para o yankees pintá-lo como um vigarista sanguinário.
O que me assusta é ver o povo elegendo heróis que poderão se tornar em breve seus algozes. Homens que desdenham das minorias, que não respeitam mulheres, nem negros, nem homossexuais. Deus que nos livre desta sina.
Que tal lermos um pouco mais bons livros de história, e menos revistas tendenciosas à serviço de interesses nada altruístas? #ficadica

fonte: https://www.facebook.com/hermes.c.fernandes/posts/10211646670858229

O que Jesus pensava?

Ce que voyait Notre-Seigneur sur la Croix c. 1890. Brooklyn Museum, Nova York

O que se passava na cabeça de Jesus na quarta-feira da semana santa? Havia experimentado a maior glória da sua vida no domingo anterior. Ele fora saudado com hosanas ao filho de Davi! A cidade o recebera como a um herói. A sagrada e tumultuada Jerusalém abrira suas portas de par em par. Mantos foram estendidos ao chão, ramos de oliveira agitados em frenesi. Foi o apogeu de uma carreira de três anos. Ele conhecia a cidade há muito tempo. Perdeu-se nela aos doze anos. Jerusalém, a dourada, com o templo refeito por Herodes, o Grande, deveria impressionar um homem nascido em Belém e criado na pacata Nazaré.
Jesus amava a cidade santa. Em Lucas 19,41, lemos que ele chorou ao ver a cidade e antecipar sua destruição. Era uma paixão de verdade: sua maior crise de fúria tinha sido expulsar vendilhões do espaço sagrado. O gesto indicava seu zelo afetivo pelo lugar. Ninguém reconheceria o dócil pregador do Sermão da Montanha virando mesas e gritando. Talvez os íntimos conseguissem vislumbrar além: a cena impactante nascia do amor do Filho pela casa do Pai.
Quarta-feira, mês de Nisã no calendário judaico, primavera na cidade santa. Dias mais frescos, céu azul, a temperatura mais amena de uma cidade alta. Como supomos que ele tinha capacidade de saber o que estava à frente, deveria existir um pouco de melancolia em relembrar que alguns dos que o saudaram do Domingo de Ramos estariam entre os que gritariam Barrabás na mesma semana. As mesmas bocas do “hosana” berrariam “crucifica-o”.
Era a semana de Pessach, da celebração judaica que lembrava a libertação da escravidão do Egito. Haveria uma ceia com os amigos. Isso ocorreria amanhã, quinta-feira santa no calendário católico, quinta de endoenças na tradição portuguesa.
No fim do século XV, Leonardo da Vinci canonizou a santa ceia como um ambiente centralizado, com 13 homens, sem empregados ou mulheres (Convento de S. Maria delle Grazie, Milão) . Jesus anuncia que alguém vai trai-lo. O afresco mostra o espanto geral. Judas segura um saco de moedas e derruba sal, sinal de azar. Cem anos mais tarde, Tintoretto ampliou a cena no quadro A última Ceia (Basílica de San Giorgio Maggiore, Veneza). Há funcionários, cachorros, anjos, louça sendo lavada. Passamos do mundo ordenado de Leonardo para uma rave.
Na última ceia, Jesus diz algo comovente: eu desejei ardentemente comer esta ceia pascal antes de padecer (Lc, 22-15). É uma frase muito humana de compartilhar mesa e afeto com quem se ama antes do fim. Aqueles eram os doze homens que o acompanhavam havia anos. Alguns tinham gênio complexo. Tiago e João eram chamados de “filhos do trovão” pelo temperamento. Pedro era decidido e líder, mas negaria três vezes ao mestre na madrugada seguinte. Mesmo Judas estava ali. Talvez o Mestre tivesse uma dor dupla com seu tesoureiro: sabia que ele iria traí-lo, mas sabia que ele cometeria suicídio, o grande tabu judaico. Qual das dores mais incomodava ao Nazareno? Ser traído pelo discípulo-amigo ou perceber que Judas se condenava à danação? Era uma noite de emoções intensas. Os Evangelhos nunca narram Jesus sorrindo, mas descrevem inúmeros momentos do Messias chorando.
Uma das virtudes de Jesus era a capacidade de surpreender. De repente, para espanto geral, Ele se levanta e começa a lavar os pés dos discípulos. Quer mostrar o grau de amor heróico que reverte hierarquias. Quem comanda é o primeiro servidor dos comandados. A lição é permanente e ainda não aprendida. Pedro, sempre cheio de arroubos teatrais, pede para ser lavado por completo. Jesus deve ser paciente. O pescador de homens está em formação. Pedro é um herói ainda imperfeito, que afunda na água quando tem medo, que nega o mestre, que cochila enquanto Jesus agoniza e que, ao final, vira a pedra sobre a qual toda a obra seria edificada. Pedro, a “pedra”, é humano. Jesus não escolheu anjos, mas seres humanos. Conhece a seus discípulos, e, curiosamente, ama-os do mesmo jeito. Amar conhecendo é um dom único e uma generosidade épica.
A cena mais tocante da última Páscoa de Jesus é dada pelo afeto de João, o mais novo. Ele pousa a cabeça no peito do Mestre. É o benjamin do grupo e será o último a morrer. Ao redor daquela mesa estavam sentados o tema principal e cinco autores do Novo Testamento: Mateus, João, Pedro, Tiago e Judas Tadeu. Foi um encontro notável. Gosto de imaginar que, ali perto, numa cerimônia mais ortodoxa, estava o maior autor individual do Novo Testamento: Saulo de Tarso, sem saber que sua vida seria mudada pelos acontecimentos que transcorriam no Cenáculo. A ceia foi a última alegria de Jesus nas terríveis horas seguintes.
Como funciona a cabeça de alguém que sabe o futuro? Eu me casaria tendo presente todos os desentendimentos futuros? Conversaria com alguém que me causaria decepção anos mais tarde? Talvez por isso seja vedado aos homens o conhecimento do futuro. Não aguentaríamos a dor da verdade pela frente.
James Jacques Tissot (1836-1902) retratou o Calvário sob ângulo novo: a cena vista apelos olhos de Jesus (Ce que voyait Notre-Seigneur sur la Croix c. 1890. Brooklyn Museum, Nova York) . Procure essa imagem e você será apresentado a uma interpretação pouco comum. Ao invés de um Jesus centralizado, um que não está na cena ( a não ser por um detalhe dos pés), entretanto determina o horizonte de visão. Assumimos a posição dEle. A morte na cruz era excruciante pela dor; terrível pela humilhação de tormento típico de escravo e, para piorar, era a chance para o Messias avaliar a natureza humana que não cessa de surpreender pela pusilanimidade. Somos todos canalhas e, invariavelmente, covardes. E Ele amou aos homens apesar do que via. Boa semana santa.
Leandro Karnal – Historiador

 

 

 

Aliviando a bagagem

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Preciso aliviar minha mente em palavras

Organizar o pensamento

Desanuviar as tristezas pelo que tenho visto

E ouvido.

 

Gente defendendo a justiça através da injustiça

Pedindo a morte do outro que fez mal,

Enquanto se faz mal.

Condenando o pensamento alheio

com argumento estético.

 

Gente dizendo em púlpito, para a Igreja,

que a Bíblia ensina o capitalismo,

dizendo-se conservador e demonizando o outro.

 

Gente querendo controlar o espaço e o ato alheio,

Machucando e insistindo em repetir os mesmos erros.

 

Gente que se diz fiel e defensor da paz e da unidade

Marcando várias vezes e furando compromissos,

Não devolvendo coisas emprestadas,

Fomentando a rixa e oprimindo o próximo.

 

Gente que vive se defendendo do que não foi lhe direcionado.

Que arrota santidade enquanto discrimina a teologia do outro,

Que age em nome de uma instituição,

Mandando e desmandando de acordo com o próprio pensamento.

 

Gente que não olha para o próprio umbigo

Que vive sua vida, comete seus erros,

Mas não deixa passar quando o outro erra.

 

Gente que não respeita o limite do outro.

Que não se importa com isso, com desgastes,

cansaço, exaustão.

Que ora para que o outro atenda suas expectativas

Não para compreendê-lo melhor,

Recusando-se a calçar os seus sapatos.

 

Gente assim me entristece

Quase da mesma maneira daquela que vejo no espelho

Com tantos limites, tantas irregularidades.

 

Diploma algum comprará a paz e o caráter de que tanto necessito.

Título ou posição alguma tem a capacidade de trazer dos mortos

Aqueles que foram violentamente levados.

 

Minha teologia, se só me serve para justificar-me diante dos outros,

Para me colocar em posição superior, me alienar da vida

De quem necessita,

Se esta minha teologia vê a Bíblia como fonte de minhas próprias ideias e ideologias, ignorando a Pessoa que se revela através de suas páginas,

Que agiu acima do sistema, que o confrontou, muitas vezes o ignorou,

Então sou mais miserável que os bandidos,

Mais miserável que os religiosos,

Muito mais do que aqueles que não seguem minhas orientações e ideias,

Que não se encaixam em minhas regras, dos quais sinto nojo e desprezo,

sim, sou muito mais miserável do que todos eles juntos.

 

Angela Natel – 04/04/2017.

 

 

 

 

A cura do mundo

Uma reflexão tirada do livro ‘Intolerância Zero’, de Hermes Fernandes…

Captura de Tela (1599)

Captura de Tela (1600)

Ouça a música no link abaixo:

LULU SANTOS – a cura

DOIS LADOS DO MAL

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Diz C.S. Lewis que o “Coisa Ruim” nunca manda um pecado só. Ele sempre envia dois, que correspondem a extremos opostos para os quais ele quer remeter os cristãos, privando-os assim da simetria de caráter, ideias e sentimentos.
Qual o extremo oposto do mal que você e eu julgamos combater? Será que você e eu não nos deixamos enredar por ele?
Que medidas profiláticas, portanto, poderiam ser tomadas para evitarmos essa cooptação maligna e sutil? Sugiro, entre muitas, pelo menos cinco:
1. Procure conhecer bem o ponto de vista daqueles de quem você diverge. Antes de falar, responda: o que li sobre essa corrente de pensamento da qual divirjo?
2. Tenha contato com gente diferente daquelas que fazem parte do seu grupo de amizade. É pouco provável que você e seus amigos representem hoje o estágio intelectual mais avançado do cristianismo.
3. Pense na possibilidade de você estar enganado. É da natureza humana o partidarismo, o radicalismo, a unilateralidade. Você é ou não é filho de Adão?
4. Avalie quais temores, interesses pessoais e preconceitos o fazem adotar o ponto de vista que adota. Para quem você trabalha? Teme perder dinheiro, fama, aceitação?
5. Examine suas relações do passado a fim de saber se uma experiência amarga com alguém o fez odiar toda espécie de pensamento associado a essa mesma pessoa. Foi ignorado por ela? Ela o prejudicou? O traiu?
Acima de tudo, procure imitar a Cristo, que não fechou nem com os saduceus, nem com os fariseus, nem com os zelotes, nem com os essênios.
O dia que você passar a ser compreendido pelos homens, e pessoas, por motivos justos, passarem a chamá-lo de “progressista” ou “conservador”, há muito você já terá deixado de se comportar como servo de Cristo; e isso, para a alegria do inferno.
Antonio Carlos Costa
fonte: https://www.facebook.com/profile.php?id=100009805770419&hc_ref=NEWSFEED&fref=nf
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